O crescimento do mercado veterinário no Brasil trouxe consigo uma nova realidade: hospitais com internação, UTI, centro cirúrgico, diagnóstico por imagem e operação 24 horas. Nesse cenário, o prontuário eletrônico deixa de ser apenas uma ferramenta digital e passa a ser a base que sustenta qualidade assistencial, eficiência operacional e rentabilidade. Ao longo deste artigo, você vai entender, com dados concretos e evidências científicas, como o prontuário eletrônico impacta diretamente a organização do cuidado, a padronização de protocolos, a segurança da informação e os resultados financeiros de clínicas e hospitais veterinários, e, principalmente, como implantar de forma estratégica.
Prontuário eletrônico veterinário: o que é, na prática, e o que ele precisa registrar
Antes de falar em benefícios, é fundamental alinhar conceitos. Afinal, o que é, de fato, um prontuário eletrônico veterinário?
Na prática, o prontuário eletrônico é o registro digital estruturado de todo o histórico clínico do paciente, o animal, vinculado aos dados do tutor e à jornada completa de atendimento. Isso inclui consultas, exames laboratoriais, exames de imagem, procedimentos cirúrgicos, internações, prescrições, vacinação, evolução clínica e alta.
Não se trata apenas de substituir papel por tela. Trata-se de estruturar a informação de forma padronizada, rastreável e integrada.
EMR vs EHR: diferença que impacta gestão
Em termos conceituais, há uma distinção importante:
- EMR (Electronic Medical Record): mais focado na ficha clínica dentro da própria unidade.
- EHR (Electronic Health Record): visão mais ampla e integrada, com capacidade de interoperabilidade entre setores e, potencialmente, entre diferentes unidades ou sistemas.
Em um hospital veterinário, essa diferença não é teórica. Quando falamos em emergência, internação, centro cirúrgico, anestesia, laboratório e diagnóstico por imagem funcionando de forma integrada, estamos falando de um prontuário que conecta setores e sustenta decisões clínicas em tempo real.
Se o prontuário é fragmentado, o fluxo é fragmentado.
Se o registro é inconsistente, a conduta também pode ser.
O prontuário como fio condutor da operação hospitalar
Em uma operação 24/7, com troca constante de plantões e múltiplos profissionais envolvidos no mesmo caso, o prontuário eletrônico se torna o fio condutor da continuidade assistencial.
É nele que ficam registrados:
- Avaliações de risco
- Protocolos adotados
- Medicações administradas
- Evoluções clínicas
- Intercorrências
- Materiais utilizados
- Decisões cirúrgicas
- Orientações de alta
Sem um registro estruturado e acessível, o risco de ruído de comunicação aumenta. E, em ambiente hospitalar, ruído significa erro, retrabalho, atraso e, muitas vezes, impacto financeiro.
Portanto, quando falamos de prontuário eletrônico, estamos falando de infraestrutura de gestão clínica. Ele conecta atendimento, operação e resultado.
Prontuário eletrônico funciona na prática? O que os dados já mostram
Até aqui, falamos de conceito e estrutura. Agora, a pergunta que realmente importa para um gestor é objetiva: o prontuário eletrônico funciona na prática?
A resposta não está baseada apenas em discurso de fornecedores ou tendências tecnológicas. Ela está sustentada por dados concretos, pesquisas nacionais e internacionais e experiências acumuladas tanto na saúde humana quanto na medicina veterinária.
Evidências na saúde humana, impacto em acesso e protocolos
Um estudo publicado na revista Ciência & Saúde Coletiva, com dados do terceiro ciclo do PMAQ-AB e análise de mais de 30 mil unidades de Atenção Primária à Saúde no Brasil, demonstrou associação significativa entre o uso de prontuário eletrônico e melhores indicadores organizacionais.
As unidades que utilizavam prontuário eletrônico apresentaram:
- Maior realização de atendimento à demanda espontânea, com odds ratio de 1,66
- Maior avaliação de risco e vulnerabilidade, OR de 1,33
- Maior uso de protocolos de conduta, OR de 1,66
- Maior possibilidade de agendamento por telefone, OR de 3,18
Em termos práticos, isso significa que o prontuário eletrônico esteve associado a melhor organização do acesso, maior padronização de condutas e melhor coordenação do cuidado.
Ao transportar essa lógica para um hospital veterinário, o paralelo é direto. Triagem mais estruturada, priorização de casos críticos, padronização de protocolos anestésicos e cirúrgicos e maior previsibilidade assistencial não são consequência do acaso, mas de informação organizada e disponível.
Fonte: https://www.scielosp.org/article/csc/2024.v29n1/e04492023/
Percepção de valor e preocupação com segurança
Uma pesquisa realizada pelo IESS em parceria com o Instituto Vox Populi, com 3,2 mil entrevistados no Brasil, mostrou que 70 por cento dos participantes já ouviram falar em prontuário eletrônico e reconhecem vantagens como agilidade, acesso rápido ao histórico clínico e integração entre profissionais.
Ao mesmo tempo, 57 por cento manifestaram preocupação com vazamento de dados e uso indevido das informações.
Esse dado é estratégico. Ele mostra que a digitalização é percebida como avanço, mas exige governança. Em hospitais veterinários, mesmo que os dados clínicos do animal não sejam, por si, dados pessoais sensíveis, o prontuário contém informações do tutor, histórico financeiro, telefone e endereço, todos sujeitos à LGPD.
Fonte: https://medicinasa.com.br/pep-seguranca/
O que já se observa na medicina veterinária
No campo veterinário, estudo publicado no Journal of the American Veterinary Medical Association analisou o uso presente e futuro de registros médicos eletrônicos em clínicas de pequenos animais nos Estados Unidos.
Os achados mostram adoção crescente de EVMRs, com uso não apenas para registros clínicos, mas também para:
- Agendamento
- Registros cirúrgicos
- Faturamento
- Marketing
- Avaliação de desempenho
As principais barreiras relatadas foram custo, tempo de implantação, resistência à mudança e receio de problemas tecnológicos, exatamente os mesmos desafios observados na saúde humana.
Fonte: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25029312/
Além disso, no Brasil, um trabalho acadêmico do IFRS desenvolveu um sistema de prontuário eletrônico veterinário baseado em arquitetura modular e microsserviços, com foco em interoperabilidade via API com sistemas de gestão hospitalar. Esse tipo de iniciativa reforça que o prontuário eletrônico veterinário já é pensado como plataforma integrada de gestão, e não apenas como ficha digital.
Fonte: https://repositorio.ifrs.edu.br/bitstream/handle/123456789/1882/1234567891882.pdf
O consenso técnico
Quando observamos o conjunto das evidências, o cenário é claro. Há consistência na associação entre prontuário eletrônico, organização do cuidado, uso de protocolos e melhoria operacional.
O debate relevante já não é mais se o prontuário eletrônico funciona. O ponto central passa a ser como implantar bem, com processos claros, governança e integração com a estratégia do hospital.
E é justamente nesse ponto que muitos projetos se perdem.
Benefícios reais do prontuário eletrônico em clínicas e hospitais veterinários
Depois de compreender o conceito e observar o que os dados já indicam, é hora de trazer a discussão para o chão da operação. Afinal, quais são os benefícios concretos do prontuário eletrônico dentro de uma clínica ou hospital veterinário?
Aqui não falamos de teoria. Falamos de impacto clínico, organizacional e financeiro.
Qualidade do registro e segurança assistencial
Registros manuscritos, fichas soltas e anotações paralelas carregam riscos evidentes. Caligrafia ilegível, informações incompletas, páginas extraviadas e ausência de padronização são problemas recorrentes.
Em ambiente hospitalar, especialmente com plantões e múltiplos profissionais acompanhando o mesmo paciente, essas falhas podem gerar:
- Erros de medicação
- Duplicidade ou omissão de procedimentos
- Dificuldade de rastrear condutas
- Retrabalho na conferência de informações
O prontuário eletrônico elimina problemas de legibilidade e reduz inconsistências por meio de campos estruturados, templates padronizados e, quando bem configurado, campos obrigatórios que garantem registro completo.
Além disso, a evolução clínica passa a ser cronológica, organizada e facilmente acessível. Isso melhora a continuidade do cuidado, especialmente em internação e UTI, onde a comunicação entre turnos é crítica.
Portanto, o ganho não é apenas administrativo. Ele é assistencial.
Produtividade e otimização do tempo da equipe
Um dos argumentos mais fortes a favor do prontuário eletrônico é o ganho de tempo operacional.
Buscar um prontuário físico, localizar exames impressos, anexar documentos manualmente e consolidar informações consome minutos preciosos ao longo do dia. Quando multiplicado pelo volume de atendimentos, esse tempo se transforma em custo invisível.
Com o prontuário eletrônico, a equipe consegue:
- Acessar histórico completo em segundos
- Padronizar prescrições e evoluções
- Recuperar exames e imagens integrados ao sistema
- Gerar relatórios automaticamente
Relatos práticos de hospitais que utilizam prontuário digital destacam a facilidade para registrar vacinas, programar avisos de retorno e manter histórico completo do paciente, com identificação de data, responsável técnico e tipo de procedimento.
O tempo economizado não é apenas conveniência. Ele pode ser convertido em maior capacidade de atendimento, melhor experiência para o tutor ou dedicação mais aprofundada a casos complexos. Em termos de gestão, isso se traduz em potencial de aumento de receita ou melhora de margem.
Padronização de protocolos e impacto direto no faturamento
A padronização é um dos maiores diferenciais estratégicos de hospitais veterinários maduros.
Com prontuário eletrônico, é possível criar templates para patologias recorrentes, protocolos anestésicos, checklists cirúrgicos e condutas terapêuticas. Isso reduz variação indesejada entre profissionais e aumenta previsibilidade clínica.
Mas há um segundo efeito, muitas vezes negligenciado, o impacto financeiro.
Sistemas bem configurados vinculam automaticamente o que foi executado ao módulo financeiro. Isso reduz:
- Procedimentos realizados e não lançados
- Materiais de alto custo não registrados
- Perdas invisíveis de faturamento
- Divergências entre assistência e cobrança
Em hospitais com centro cirúrgico e internação, o controle de insumos, tempo de sala, medicamentos e materiais especiais precisa estar conectado ao prontuário. Caso contrário, parte do que é feito não se converte em receita.
O prontuário eletrônico, quando integrado ao sistema de gestão, deixa de ser apenas ferramenta clínica e passa a ser mecanismo de captura de valor.
No entanto, para que esses benefícios se materializem, é necessário olhar para outro ponto essencial, segurança da informação e governança de dados.
LGPD, segurança da informação e governança de dados no prontuário eletrônico
Ao falar de prontuário eletrônico, é comum que surja uma preocupação imediata, segurança.
Existe uma percepção de que o papel é mais seguro por estar “fisicamente guardado”. No entanto, quando analisamos sob a ótica técnica e jurídica, o cenário é diferente.
Por que o digital pode ser mais seguro que o papel
Prontuários físicos estão sujeitos a extravio, deterioração, incêndio, inundação e acesso indevido sem qualquer rastreabilidade. Não há registro claro de quem consultou o documento ou quando determinada informação foi alterada.
Já um prontuário eletrônico bem estruturado incorpora recursos como:
- Controle de acesso por perfil de usuário
- Senhas individuais e autenticação
- Criptografia de dados
- Backup automático em nuvem
- Registro de logs, identificando quem acessou o quê e em qual momento
Na prática, isso significa maior rastreabilidade e capacidade de auditoria.
Em ambiente hospitalar veterinário, onde múltiplos profissionais atuam simultaneamente, a definição de perfis é essencial. O médico veterinário pode ter acesso completo à evolução clínica, enquanto a recepção visualiza apenas dados cadastrais e agendamentos. Esse tipo de segmentação reduz risco e aumenta controle.
O que o tutor teme e como responder com governança
A pesquisa do IESS em parceria com o Instituto Vox Populi mostrou que, embora a maioria dos entrevistados reconheça vantagens do prontuário eletrônico, 57 por cento demonstram preocupação com vazamento de dados e uso indevido das informações.
Esse dado é relevante porque o prontuário veterinário não contém apenas dados clínicos do animal. Ele reúne informações do tutor, como nome, telefone, endereço, histórico financeiro e, eventualmente, dados sensíveis vinculados a meios de pagamento.
Essas informações estão sujeitas à Lei Geral de Proteção de Dados, LGPD. Portanto, a responsabilidade não é apenas técnica, é legal e reputacional.
A resposta estratégica não é evitar a digitalização, mas estruturar governança.
Isso inclui:
- Definição clara de perfis de acesso
- Política de retenção e descarte de dados
- Consentimento informado do tutor
- Monitoramento periódico de logs
- Treinamento da equipe sobre boas práticas
Hospitais que tratam o prontuário eletrônico como ativo estratégico de dados passam a enxergar segurança não como obstáculo, mas como diferencial competitivo.
E essa visão nos leva a um próximo nível da discussão.
Se o prontuário eletrônico organiza, protege e integra informações, ele também se torna a base para inovação e inteligência gerencial.
Prontuário eletrônico como base para inovação, integração e inteligência de gestão
Quando o prontuário eletrônico é bem estruturado, ele deixa de ser apenas um repositório de informações. Ele se transforma em base estratégica para integração, análise de dados e evolução do modelo de negócio.
Hospitais veterinários que enxergam o prontuário apenas como exigência operacional perdem a maior parte do seu potencial.
Integração entre setores e cadeia de valor
Sem dados estruturados, não há integração real.
Um prontuário eletrônico robusto permite conexão com:
- Laboratórios de diagnóstico
- Serviços de imagem
- Módulo de internação
- Centro cirúrgico
- Estoque e compras
- Faturamento
- Relacionamento com o tutor
Isso significa que exames podem ser anexados automaticamente ao histórico do paciente, materiais utilizados em cirurgia podem ser vinculados ao procedimento e lançados no financeiro, e retornos podem ser programados com base em protocolos clínicos.
A informação deixa de circular de forma paralela e passa a compor um fluxo único e rastreável.
Indicadores que passam a existir
Hospitais que trabalham com papel têm enorme dificuldade em extrair indicadores consistentes. Muitas decisões acabam sendo tomadas com base em percepção e não em dados.
Com prontuário eletrônico estruturado, torna-se possível acompanhar, por exemplo:
- Taxa de retorno planejado versus realizado
- Frequência de uso de protocolos clínicos
- Ocupação média de leitos
- Tempo médio de permanência
- Ticket médio por tipo de atendimento
- Consumo de insumos por procedimento
Esses indicadores não servem apenas para relatórios. Eles orientam decisões estratégicas sobre escala médica, investimento em equipamentos, precificação e marketing.
Sem dado estruturado, não há inteligência de gestão.
IA e automação, onde realmente fazem sentido
Recentemente, soluções com inteligência artificial começaram a ser utilizadas em clínicas e hospitais veterinários no Brasil para transcrição automática de consultas e internações, gerando documentos estruturados que podem ser incorporados ao prontuário do animal.
Notícias do setor indicam otimização significativa de tempo do profissional, chegando a reduções expressivas no tempo dedicado à documentação.
No entanto, é importante destacar um ponto estratégico.
Inteligência artificial só gera valor quando alimentada por dados organizados. Sem prontuário eletrônico estruturado, não há base consistente para automação, análise preditiva ou apoio à decisão.
Além disso, estudos internacionais publicados em periódicos de medicina veterinária mostram que bases de dados estruturadas provenientes de registros eletrônicos permitem geração de evidência no mundo real, análises epidemiológicas e melhoria contínua de protocolos clínicos.
Ou seja, o prontuário eletrônico é o coração informacional do hospital.
Ele conecta assistência, gestão e inovação.
Mas é justamente nessa transição que surgem obstáculos importantes.
Excelente, vamos avançar para um dos pontos mais sensíveis da decisão.
Desafios de implantação do prontuário eletrônico e por que muitos projetos falham
Se os benefícios são tão evidentes, por que ainda existem hospitais veterinários operando com sistemas híbridos, parte papel, parte digital?
A resposta não está na falta de tecnologia. Está na forma como a implantação é conduzida.
Estudos com clínicas de pequenos animais, como o publicado no Journal of the American Veterinary Medical Association, mostram que mesmo em contextos onde o registro eletrônico já é adotado, ainda há uso parcial ou híbrido por barreiras como custo percebido, tempo de implantação, resistência à mudança e receio de problemas tecnológicos.
Esses fatores são universais. E, em hospitais veterinários, tornam-se ainda mais complexos.
Barreiras clássicas, e como elas se manifestam na prática
- Custo percebido: Muitas decisões são baseadas apenas no valor da mensalidade do software, ignorando o custo oculto do retrabalho, das perdas de faturamento e da desorganização operacional.
- Falta de tempo para implantar: A rotina hospitalar 24 horas cria a sensação de que nunca é o momento ideal para mudar. O resultado é a postergação contínua.
- Resistência da equipe: Profissionais mais experientes podem apresentar dificuldade de adaptação ao uso intensivo de computador, especialmente quando não há treinamento adequado.
- Medo de instabilidade tecnológica: Existe receio de queda de sistema, perda de dados ou paralisação do atendimento.
Nenhuma dessas barreiras é técnica. São barreiras de gestão e mudança organizacional.
O erro mais caro, digitalizar processo ruim
Um ponto crítico precisa ser dito com clareza.
Prontuário eletrônico não conserta processo ruim. Ele apenas torna o problema mais visível.
Se o hospital não tem fluxos claros de triagem, internação, centro cirúrgico e alta, a digitalização pode amplificar gargalos. Templates mal configurados, campos redundantes e ausência de padronização geram frustração e abandono do sistema.
Por isso, a implantação precisa começar pelo redesenho de processos.
Primeiro organiza-se o fluxo. Depois digitaliza-se.
Complexidade hospitalar, um fator decisivo
Em clínicas menores, a implantação pode ser mais simples. Já em hospitais com múltiplos setores, operação 24 horas e grande volume de casos, a complexidade aumenta.
É preciso considerar:
- Integração entre setores
- Definição de responsabilidades por etapa
- Padronização de protocolos
- Controle de acesso por perfil
- Treinamento contínuo
Sem governança do projeto, o risco de retorno ao papel é real.
E é justamente por isso que a transição precisa seguir um roteiro estruturado.
Perfeito, agora entramos na parte mais estratégica.
Roteiro prático, do papel ao prontuário eletrônico, visão estratégica de implantação
A transição para o prontuário eletrônico não deve começar com a escolha do software. Deve começar com clareza sobre processos, objetivos e indicadores.
Hospitais que tratam essa mudança como simples troca de ferramenta tendem a enfrentar resistência, retrabalho e frustração. Já aqueles que encaram como projeto de transformação organizacional capturam valor real.
A seguir, um roteiro estruturado.
Diagnóstico de processos e jornada do paciente
O primeiro passo é mapear a jornada completa do paciente e do tutor:
Agendamento, recepção, triagem, atendimento clínico, exames, internação, centro cirúrgico, alta e retorno.
É necessário identificar:
- Onde a informação é gerada
- Quem registra
- Onde há duplicidade
- Onde há perda de dados
- Onde existem gargalos
Esse diagnóstico revela inconsistências que, muitas vezes, passam despercebidas na rotina. Sem essa etapa, o risco é digitalizar desorganização.
Definição de requisitos e escolha da solução
A escolha do sistema precisa ser orientada por aderência operacional, não apenas por preço ou interface visual.
Um hospital veterinário precisa avaliar se o prontuário eletrônico oferece:
- Registro clínico estruturado com anexos de exames e imagens
- Módulo de internação
- Integração com centro cirúrgico
- Controle de estoque vinculado a procedimentos
- Relatórios gerenciais confiáveis
- Logs de acesso e controle por perfil
Soluções que parecem simples em clínicas menores podem não suportar a complexidade hospitalar.
A decisão deve considerar escalabilidade e capacidade de gerar indicadores.
Implantação por fases e métricas de adoção
Projetos bem-sucedidos raramente são implementados de forma abrupta.
Uma estratégia eficiente é iniciar por um setor ou linha de atendimento, por exemplo, consultas eletivas e vacinação, ajustando templates e fluxos antes de expandir para internação e centro cirúrgico.
Durante as primeiras semanas, é essencial acompanhar métricas como:
- Percentual de atendimentos 100 por cento registrados no prontuário eletrônico
- Tempo médio de registro
- Número de inconsistências detectadas
Reuniões semanais de ajuste reduzem resistência e fortalecem adesão.
Treinamento contínuo também é indispensável. A curva de aprendizado varia entre profissionais, e apoio direcionado acelera maturidade digital.
Conectar prontuário eletrônico a indicadores de gestão
A implantação só se completa quando o prontuário eletrônico passa a alimentar decisões estratégicas.
Alguns indicadores fundamentais que podem ser extraídos diretamente do sistema:
- Taxa de retorno planejado versus realizado
- Frequência de utilização de protocolos
- Ocupação média de leitos
- Tempo médio de permanência
- Ticket médio por tipo de atendimento
Esses dados devem ser discutidos em reuniões gerenciais periódicas. É nesse momento que o prontuário deixa de ser ferramenta operacional e passa a ser instrumento de governança.
E, naturalmente, surge a pergunta central de qualquer gestor.
Qual é o retorno financeiro real dessa transformação?
ROI do prontuário eletrônico, como medir retorno em clínicas e hospitais veterinários
Falar de prontuário eletrônico sem falar de retorno sobre investimento é manter a discussão incompleta.
Gestores não investem em tecnologia por modernidade. Investem por impacto em resultado.
O ROI do prontuário eletrônico não aparece apenas na redução de papel. Ele se manifesta em produtividade, qualidade assistencial e captura de receita.
Redução de tempo administrativo por atendimento
Quando o registro é estruturado, padronizado e integrado, o tempo gasto para localizar informações, revisar histórico e consolidar dados diminui significativamente.
Esse ganho pode ser medido de forma prática:
- Tempo médio de registro antes e depois da implantação
- Tempo médio de busca de histórico
- Número de retrabalhos por falha de informação
Mesmo pequenas reduções, quando multiplicadas pelo volume mensal de atendimentos, representam horas recuperadas da equipe técnica.
Tempo recuperado é capacidade produtiva ampliada.
Redução de perdas invisíveis de faturamento
Hospitais com operação complexa frequentemente enfrentam perdas que não aparecem no DRE de forma explícita.
Procedimentos realizados e não lançados, materiais de alto custo não vinculados ao atendimento, divergência entre conduta clínica e cobrança são exemplos recorrentes.
Quando o prontuário eletrônico está integrado ao módulo financeiro, cada procedimento registrado pode gerar lançamento automático ou, no mínimo, alerta de cobrança.
Esse alinhamento reduz glosas internas e aumenta previsibilidade de receita.
Aumento de adesão a retornos e protocolos preventivos
Sistemas estruturados permitem programar lembretes automáticos para vacinação, check-ups e retornos clínicos.
Isso impacta diretamente:
- Taxa de retorno
- Frequência de acompanhamento preventivo
- Fidelização
- Receita recorrente
A experiência organizada também fortalece percepção de profissionalismo e segurança.
Menos erro, menos retrabalho, menos risco
Erro de comunicação entre plantões, duplicidade de conduta e falhas de registro geram custo operacional e risco jurídico.
A evidência observada na Atenção Primária à Saúde no Brasil mostrou associação entre uso de prontuário eletrônico e maior uso de protocolos, melhor organização do acesso e melhor coordenação do cuidado.
Quando transposta para o contexto hospitalar veterinário, essa lógica indica maior previsibilidade clínica e menor variabilidade assistencial.
Quanto maior a cultura de indicadores do hospital, mais rapidamente o ROI se torna visível.
Instituições que já acompanham métricas assistenciais e financeiras conseguem identificar, com clareza, a diferença antes e depois da digitalização estruturada.
E isso nos leva à síntese final.
Conclusão, prontuário eletrônico é infraestrutura de gestão
Prontuário eletrônico não é apenas software.
É infraestrutura de gestão clínica e de negócios.
Ele sustenta qualidade assistencial, padronização de protocolos, segurança da informação, integração entre setores, geração de indicadores e inovação.
Hospitais veterinários que desejam crescer com consistência precisam enxergar o prontuário eletrônico como base estratégica, e não como ferramenta operacional isolada.
A diferença entre um sistema simplesmente instalado e um sistema que realmente gera valor está na forma como os processos são desenhados, a governança é estruturada e os indicadores são acompanhados de maneira disciplinada.
É exatamente nesse ponto que a atuação de uma consultoria especializada faz diferença.
A Evectus apoia clínicas e hospitais veterinários no diagnóstico de maturidade digital, no redesenho de processos e na implantação orientada a indicadores, garantindo que o prontuário eletrônico se transforme em eficiência operacional, previsibilidade financeira e vantagem competitiva.
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Referencial teórico e fontes utilizadas
Uso de prontuário eletrônico e acesso, acolhimento e protocolos na APS brasileira
Ciência & Saúde Coletiva, 2024, análise do 3º ciclo do PMAQ-AB
https://www.scielosp.org/article/csc/2024.v29n1/e04492023/
Pesquisa sobre percepção dos brasileiros em relação ao prontuário eletrônico
IESS e Instituto Vox Populi, 3,2 mil entrevistados
https://medicinasa.com.br/pep-seguranca/
Researchers examine present, future usage of electronic veterinary medical records
Journal of the American Veterinary Medical Association
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25029312/
Sistema de prontuário eletrônico veterinário baseado em microsserviços
Instituto Federal do Rio Grande do Sul, TCC
https://repositorio.ifrs.edu.br/bitstream/handle/123456789/1882/1234567891882.pdf
Prontuários eletrônicos veterinários como base para geração de evidência no mundo real
Frontiers in Veterinary Science
https://www.frontiersin.org/journals/veterinary-science/articles/10.3389/fvets.2025.1550468/full